Bates Motel encerra suas atividades com louvor

Se baseando no romance escrito por Robert Bloch, Alfred Hitchcock foi o responsável pelo famoso filme de suspense/terror Psicose, lançado em 1960. Em uma história cheia de reviravoltas, somos apresentados à icônica personagem Marion Crane (Janet Leigh) que, depois de roubar uma grande quantia em dinheiro do chefe, foge para Los Angeles. No meio do caminho, Marion encontra um hotel um tanto quanto pavoroso e conhece o estranho Norman Bates (Anthony Perkins), responsável pelo lugar.

O que parecia ser apenas um filme produzido com baixo orçamento e em preto e branco, aceitação e críticas medianas na época, hoje é considerado um dos melhores filmes de Alfred Hitchcock e está presente em várias listas como um dos melhores filmes de todos os tempos, além de nos ter presenteado com uma das cenas mais famosas do cinema.

Marion Crane interpretada por Janet Leight, em Psicose (1960)

Depois da morte de Hitchcock, a Universal Pictures tentou continuar a história na década de 1980 com duas sequências estreladas por Anthony Perkins e, em 1990, com um telefilme também contando com Perkins e Henry Thomas – dessa vez, já com o intuito de abordar a adolescência do psicótico personagem. Um remake também foi lançado em 1998 com Gus Van Sant na direção, mas foi um completo fracasso.

A história ficou encostada até 2012 quando foi anunciada uma série televisiva desenvolvida por Carlton Cuse, Kerry Ehrin e Anthony Ciprian, com o intuito de contar a história de Norman Bates (agora interpretado por Freddie Highmore) e sua mãe Norma (Vera Farmiga) antes dos acontecimentos do filme de Hitchcock. A princípio, a série produzida pela Universal e exibida pelo canal A&E já demonstra que sua intenção é se basear na história original, mas não seguir a mesma à risca.

O que para os mais céticos poderia ser mais uma trágica tentativa em reproduzir uma história icônica, acabou por se tornar uma das séries mais bem recepcionadas do canal em sua primeira temporada, o que ocasionou em sua renovação até este ano, quando Bates Motel enfim encerrou suas atividades.

ATENÇÃO: O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!

Um problema em torno de prelúdios é que, por muitas vezes, nos pegamos esperando por um determinado ponto da história que não chega nunca. E, conforme as renovações para novas temporadas de Bates Motel foram acontecendo, a expectativa em ver a famosa cena do assassinato no chuveiro do hotel deixou muitos fãs impacientes.

E de fato não podemos dizer que em cinco temporadas (com dez episódios cada uma), a série conseguiu prender o telespectador com eficiência. Fomos apresentados a novos personagens como Alex Romero (Nestor Carbonell), Emma Decody (Olivia Cooke) e Dylan Massett (Max Thieriot) que, de início, aparentam estar na trama apenas para encher a história. Mas quando o desenvolvimento desses personagens com Norma e Norman acontece, somos levados aos poucos para os pontos cruciais desta adaptação.

Um desses pontos, sem dúvida alguma, é a coragem que os produtores tiveram em alterar e acrescentar alguns fatos para que a história finalizasse da exata maneira que deveria ser, mas sem deixar de lado as referências. Prova disso é voltar na terceira temporada e relembrar o episódio em que Norma, em meio a um surto, decide se afastar de tudo e faz uma viagem de carro que nos remete em cada detalhe (até na troca do carro) a viagem que Marion Crane faz na história original depois de fugir.

Parece até que o episódio foi um aviso para a mudança que seria feita na cena do chuveiro na última temporada, em que a vítima não é mais Marion Crane (apesar da personagem ter sido utilizada de forma satisfatória e interpretada pela ótima atriz e cantora Rihanna), e sim seu amante Sam Loomis (Austin Nichols).

Freddie Highmore como Norman Bates, logo após a cena do chuveiro na quinta temporada

Coragem essa que já vinha reforçada desde a decisão em matar Norma no final da quarta temporada. O brilhantismo de Bates Motel está nesses pequenos detalhes. A série nos conduziu em todos os eventos até o final para mostrar o desenvolvimento da doença de Norman e como isso afetou todos ao seu redor. Logo, não seria nada justo abrir mão das histórias secundárias e o final impactante da série não teria feito sentido algum.

O modo como fomos apresentados a Norman e, aos poucos, também a sua outra personalidade, é um dos pontos altos da série. Acompanhar a loucura tomando forma e a angústia de um adolescente que não entendia nada do que estava fazendo enquanto a mãe lutava desesperadamente para proteger o seu filho e ainda tinha que arrumar tempo para lidar com os próprios traumas nos mostra até o final do último episódio que Bates Motel sempre foi sobre família.

Uma família toda errada desde o seu início, que mesmo desconjuntada seguia buscando por um recomeço. Uma família que, quando novamente reunida, conseguiu piorar tudo. Porque é isso o que uma família faz: na busca pela perfeição, todos vão à loucura às vezes.

“It’s always been you and me”

Norman (Freddie Highmore) e Norma (Vera Farmiga) na primeira temporada de Bates Motel

Uma nota especial para as atuações maravilhosas de Freddie Highmore e Vera Farmiga. Nessa temporada final, que teve o último episódio exibido em 24 de abril, a dúvida de como Vera Farmiga participaria depois da morte de sua personagem no final da temporada passada foi sanada ao vermos que a personalidade da nossa querida Mother tomou em definitivo o corpo de Norman. E que atuações espetaculares. É impossível não ver a diferença de quando Norman é realmente Norman e quando é Norma que está em seu lugar. As cenas construídas com os reflexos, em espelhos e até alucinações poderiam se destacar entre as melhores produções em séries no ano.

Se Freddie e Vera serão reconhecidos pelas atuações, ou até Bates Motel em si pela grandiosidade de sua última temporada, não sabemos. Fato é que a série nem bem terminou e já está fazendo falta.

* Créditos das imagens: reprodução

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