Crítica: Black Mirror e o lado negro da tecnologia

Imagine acordar sozinho em uma casa sem lembrar quem é você, qual é o seu nome ou como você foi parar lá. Ao sair na rua, todas as pessoas se recusam a falar com você e apenas apontam a câmera dos seus celulares em sua direção, passando a acompanhar/filmar tudo o que você faz, como “observadores” alienados, enquanto um grupo de caçadores tenta te matar.

Ou, então, imagine um cenário futurístico onde não apenas o seu status social, mas também a sua vida dependem de um aplicativo de avaliações no qual você precisa, a todo instante, conquistar boas avaliações para ter um bom emprego, um bom aluguel, um bom tratamento médico, entre diversos outros “benefícios”.

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Essas são algumas das situações presentes na série britânica Black Mirror, criada por Charlie Brooker em 2011. No Brasil, a série ganhou um grande destaque após a estreia da sua terceira temporada em outubro pela Netflix com seis novos episódios.

A trama de Black Mirror expõe o lado negro da tecnologia e suas consequências. Temas como alienação, dependência tecnológica e maldade humana são mostrados em episódios ora sombrios, ora satíricos. Cada episódio é independente dos demais, trazendo uma nova história, com um novo elenco e um novo set.

À primeira vista, você acredita que a crítica da série seja o fato de que a tecnologia tenha saído do controle, mas, ao decorrer dos episódios, é perceptível que o problema não está na tecnologia isoladamente, mas sim na forma como as pessoas a utilizam. Por vezes, a série mostra o pior do ser humano e utiliza o avanço tecnológico para que ela se manifeste.

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The Entire History of You (S01E03)

Com um enredo que beira o genial, a série tem a capacidade de desgraçar nossa cabeça nos fazer parar para pensar sobre o comportamento humano e até onde ele pode nos levar em caso de excessos. Um exemplo é o episódio “The Entire History of You”, um dos meus preferidos. Fechando a primeira temporada, a trama mostra um aparelho chamado memória granular que é implantado no cérebro das pessoas e guarda todas as memórias como uma espécie de backup. Assim, você pode acessá-las a qualquer momento e em qualquer lugar. As consequências começam quando a existência desse “disco-rígido” torna-se a saída perfeita para justificar comportamentos humanos como ciúmes, traição e violência.

Por outro lado, também há episódios doces e felizes, como é o caso de “San Junipero” que mostra uma história de amor entre duas jovens e a relação da tecnologia no ano de 1987, indo na contramão dos demais episódios que são bem mais futuristas.

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San Junipero (S03E04)

E, falando em episódios futuristas, provavelmente o episódio que mais repercutiu na terceira temporada seja o “Nosedive” (citado no início do post), que mostra algo que não está distante da nossa realidade: um aplicativo de avaliações que determina o status social da população.

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Nosedive (S03E01)

É interessante observar que, apesar de ser mostrar uma realidade bem mais avançada tecnologicamente da qual vivemos hoje, o episódio expõe abertamente comportamentos que já fazem parte do nosso dia a dia. Um deles é a necessidade de publicar fotos e vídeos na internet e esperar pela avaliação de outras pessoas, o que apenas transmite a ideia de que precisamos parecer felizes no mundo online, mesmo que isso não se aplique ao que somos no ‘off-line’.

“White Bear” é outro episódio ótimo, dessa vez da segunda temporada, que carrega uma crítica muito forte (também foi citado no início do post). Na história, uma mulher acorda amarrada em uma casa vazia. Todo o que ela encontra é um foto de uma menina que poderia ser sua filha – ou não. Após ir atrás de ajuda e só encontrar pessoas “hipnotizadas” com suas câmeras de celular e caçadores prontos para matá-la, a mulher encontra uma jovem (que também está fugindo dos caçadores) e começa a entender o que está acontecendo.

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White Bear (S02E02)

A explicação está em um sinal que apareceu em todas as telas de tv’s e computadores, e afetou 9 em cada 10 pessoas. As pessoas afetadas se tornaram espectadores que apenas assistem e filmam as coisas, como se não dessem a mínima para o que acontece a sua volta. Quem não foi afetado pelo sinal precisa fugir e sobreviver, basicamente.

O final traz uma reviravolta incrível. Não é à toa que esse é um dos episódios mais aclamados pelos fãs da série. Mas a grande crítica é, sem dúvidas, a nossa alienação com os smartphones e demais aparelhos eletrônicos. Quantas vezes você já viu pessoas filmando uma determinada cena na rua ao invés de ir oferecer ajuda? Até que ponto as pessoas preferem registrar e divulgar fotos e vídeos sem se preocupar com as consequências dessa atitude?

São questões que precisam ser refletidas e Charlie Brooker nos faz pensar nelas de uma maneira magnífica.

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Comentários

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4 Thoughts to “Crítica: Black Mirror e o lado negro da tecnologia”

  1. Bianca

    Muito bom, Du! Só pela sua review eu já to com a impressão que a série pinta muitos dos meus pesadelos. Eu vi um anime recente com um tema parecido: Um jogo/aplicativo de celular que sugeria alvos (pessoas), e distribuía pontuação para os ‘jogadores’ que conseguissem matar os alvos, fazendo as pessoas ficarem violentas pra tentar conseguir a pontuação mais alta por um dia. Espero que esses temas sejam cada vez mais explorados pra ver se isso influencia em alguma coisa as pessoas à pensarem na merda que elas tão fazendo na internet. Idealmente isso chega no tiozinho da selfie kkkk http://s2.glbimg.com/fo8t3iDWSa9WZULAMOtZMhkU2gU=/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2016/07/25/selfiet.jpg

    1. Eduardo Silva Eduardo S.

      Obrigado, Bia! Esse tiozinho da selfie dá para inspirar um “Black Mirror Brasil”, hahaha. O episódio Hated in the Nation da terceira temporada lembra bastante esse anime que você falou, veja quando puder! 🙂

  2. Muito bom Du!!! Fiquei com vontade de assistir todos os outros episódios.

    1. Eduardo Silva Eduardo S.

      Obrigado, Karol! Assista mesmo, vale muito a pena!

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