Crítica: Objetos Cortantes, de Gillian Flynn

Crítica Objetos Cortantes Gillian Flynn 2Objetos Cortantes, da autora Gillian Flynn (que também escreveu Garota Exemplar), é um livro que mistura romance policial com suspense psicológico. A personagem principal, Camille Preaker, é uma repórter policial de um jornal não-muito-prestigiado em Chicago, o Daily Post Chicago. Ela se descreve, inicialmente, como uma mulher frouxa e até mesmo insegura. O que, de fato, ela é. Ou tenha se tornado.

Recém-saída de um hospital psiquiátrico, no qual ficou internada durante seis meses por ter tendências a se cortar (daí o nome do livro), Camille ainda está ajeitando sua vida quando seu editor-chefe, Frank Curry, propõe que ela volte a sua cidade natal para produzir uma matéria sobre um suposto assassino em série que está preocupando moradores, em especial aqueles que têm filhos pequenos.

A cidade em questão é Wind Gap, no Missouri, uma cidadezinha do interior onde Camille nasceu e passou toda sua infância e adolescência, até sair de lá 8 anos atrás e nunca mais voltar. O crime a ser investigado envolve duas crianças: Ann Nash, de 9 anos, que foi encontrada morta no ano anterior, após ser estrangulada e ter todos os seus dentes arrancados, e agora Natalie Keene, de 10 anos, que está desaparecida.

Por ser uma cidadezinha pacada onde nada acontece, Curry acredita que seria mais fácil para Camille, uma nativa do local, conseguir informações com moradores e com a polícia – e fazer isso antes que o caso chegue até os outros jornais concorrentes. Camille, por sua vez, sabe que terá que enfrentar os “fantasmas do seu passado” voltando para Wind Gap, mas ela aceita a proposta mesmo assim.

“Quando sua família é sua pior inimiga.” Essa frase me acompanhou durante boa parte do livro. Camille decide ficar hospedada na casa de sua mãe até que ela consiga finalizar sua matéria. A relação entre as duas não é das melhores, mas nós só descobrimos o porquê disso ao longo do livro. Aliás, o livro todo tem isso: você sabe que um fato existe, mas só vai descobrir como e por que ele aconteceu ao longo dos capítulos. O próprio fato de Camille se cortar é algo que é dito mesmo na sinopse do livro, mas quando esse fato vem à tona no livro é, no mínimo, surpreendente.

De um modo geral, Objetos Cortantes é um livro com personagens bem complexos. É narrado em primeira pessoa e a Camille é uma ótima protagonista, com características muito fortes; mas o leitor consegue se envolver com praticamente todos os outros personagens, entender seus jeitos, suas convicções e ficar, o tempo todo, se perguntando quem são os “mocinhos” e quem são os “bandidos” da história.

As pistas que levam à identidade do assassino (que é um dos pontos centrais da história) oscilam entre alguns personagens do livro e, embora eu tenha ouvido de algumas pessoas que, da metade do livro para a frente, já é possível adivinhar quem é o assassino, isso não aconteceu comigo. Na verdade, eu apostei minhas fichas em outro personagem e errei.

Além disso, o fato de Wind Gap ser uma cidadezinha carregada de valores morais, mas ter diferentes suspeitos pelo assassinato de duas crianças, mostra como existe uma falsa moralidade presente em seus habitantes, da qual eu posso chamar de hipocrisia tranquilamente. Não apenas por isso, mas também pelas coisas que as pessoas fazem “quando ninguém está olhando”.

Em outras palavras, Wind Gap é uma cidadezinha do interior em que meninos se comportam de um jeito X, meninas podem ou não podem fazer “isso” e “aquilo”, mulheres precisam se casar e ter filhos antes dos 30 anos, as famílias precisam ir a igreja toda semana… e, mesmo assim, quando ninguém está olhando você dá uma escapada e vai até a floresta que cerca a cidade para fumar maconha com seus amigos ou fazer sexo com desconhecidos.

Provavelmente foi por esse motivo que eu gostei tanto de Camille. Na infância ela era um exemplo de garota perfeita, bonita e popular, mas desandou totalmente na adolescência e passou a quebras várias regras morais que existiam na cidade – até ela não aguentar mais e se mudar para Chicago. Foi nessa época, aliás, que ela desenvolveu a compulsão por se cortar.

Enfim, Objetos Cortantes é um ótimo livro que vale muito a pena ser lido. Fica aí a dica!

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