Logan: a despedida que merecemos

Há 17 anos, Hugh Jackman começava a encarnar um dos papéis de sua vida. Apesar da desconfiança geral sobre um filme de super-heróis na época, sem dúvida os X-Men abriram passagem para tantos outros filmes transportados das histórias em quadrinhos para a tela de cinema até hoje. E, apesar de muitos deslizes, fomos presenteados com personagens como o Wolverine.

O mutante tem na bagagem, além da equipe, filmes próprios um tanto quanto frustrantes. Após X-Men Origens: Wolverine que não chegou nem perto de fazer jus ao herói e uma tentativa de redenção com o mediano Wolverine – Imortal, Logan chega aos cinemas nesta quinta-feira, 2, para ser o filme definitivo e encerrar a trilogia por cima. E é uma pena que foi preciso nos despedir do personagem para que ele e seu intérprete tivessem finalmente o filme que merecem.

O ano é 2029 e já não nascem mais mutantes. O filme dirigido por James Mangold nos apresenta um Logan (Hugh Jackman) cada vez mais debilitado e praticamente sem seu poder de cura, um Charles Xavier (Patrick Stewart) que não lembra em nada aquele professor com uma força surreal mesmo que esteja em uma cadeira de rodas, e uma garota intrigante chamada Laura (Dafne Keen) que assusta qualquer marmanjo quando parte para a ação e mostra o quanto de Wolverine possui em si.

Não somente as ações estão (bem) mais pesadas do que já vimos anteriormente, o emocional carregado é algo que transparece mesmo quando os personagens nem sequer falam. O peso das consequências de tudo que ocorreu até aqui é estampado no rosto cansado de Logan, nos grunhidos altos e sofridos a cada vez que ele precisa defender seus próximos, no sangue em suas camisetas e em cada ferimento que não cicatriza. Se nos filmes anteriores ficamos alheios ao que as suas garras realmente faziam aos oponentes, aqui temos a visão completa do quão destruidor é ter as lâminas de suas mãos cravadas em alguém. Apesar de cuidar de Xavier que não consegue mais controlar seus poderes, Logan ainda carrega em si o peso e a culpa de não ter conseguido salvar as pessoas que amou e, quando Laura aparece precisando de ajuda, a recusa em ao menos tentar conhecer a menina deixa isso mais evidente.

A deficiência em mostrar o menor dos afetos esbarra nos acontecimentos que acabam por juntar Logan, Xavier e Laura em uma viagem de carro em busca do Éden – onde a garota acredita que ela e seus amigos mutantes que fugiram do laboratório com ela estarão salvos. É durante essa viagem que o drama cresce e alterna entre a realidade caótica de todos ali e a utopia de que, talvez, houvesse uma esperança para eles.

X-23, mais conhecida como Laura no filme, ao lado de Logan em um dos momentos que demonstram maior fragilidade emocional no filme.
X-23, mais conhecida como Laura no filme, ao lado de Logan em um dos momentos que demonstram maior fragilidade emocional no filme.

Em determinado momento, Xavier está assistindo ao filme Os Brutos Também Amam na televisão de um hotel com Laura. Se fica alguma margem de dúvida sobre como Logan poderia ser representado, só essa referência já seria o bastante para sanar qualquer dúvida de que, apesar de todo amargor, de todo sofrimento e toda dor, por trás daquele mutante em decadência há um homem que ainda é capaz de fazer o que for preciso para proteger alguém – mesmo que isso lhe custe até a última gota de suor de um corpo que já não funciona mais.

Apesar de referências e a clara inspiração à HQ ‘Velho Logan’ de Mark Millar, lançada pela Marvel Comics em 2008, Logan está longe de ser um filme de super-heróis que estamos acostumados a ver. O mesmo, inclusive, brinca com a situação quando Logan encontra nas coisas de Laura algumas revistinhas dos X-Men e, ao ler as mesmas, percebe que muita coisa do que está ali não existiu e discute com a menina sobre nada daquilo ter acontecido de fato. E a vida real para eles é realmente torturante e bate com força quando expostos a cada batalha em que precisam lutar.

Hugh Jackman se despede do papel em um patamar muito superior aos filmes anteriores e deve, como Patrick Stewart, sentir que o dever está mais do que cumprido. E assim como seu personagem finalmente conhece o sentimento de algo que até o momento ele sequer conseguia imaginar como seria, nós também podemos ter a certeza de que é assim que devemos nos sentir quando damos, finalmente, um adeus digno a um dos maiores personagens dos quadrinhos no cinema: em paz.

14606264-10155013296321840-2088513744740865437-n-1_u4cuFICHA TÉCNICA

Logan (2017) – Estados Unidos

Direção: James Mangold.

Roteiro: Scott Frank, James Mangold & Michael Green.

Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook & Stephen Merchant.

Estreia: 2 de Março de 2017.

Duração: 2h17 min.

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Amanda Esteves
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Jornalista. Leave the gun, take the cannoli. Vai Corinthians!

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