O mundo está pronto para outro filme de vampiros?

Boato de que a Universal Studios pretendia reiniciar o universo compartilhado de monstros, bastante famoso entre as décadas de 1920 e 1950, com Dracula Untold (Drácula: A História Nunca Contada, no Brasil), lançado em 2014. Infelizmente, o longametragem foi considerado um fracasso comercial — a produção custou US$ 70 milhões e gerou uma receita de US$ 215 milhões, aproximadamente. Com apenas 23% de aprovação no Rotten Tomatoes, as críticas apontam um dos problemas: a péssima reinvenção da mitologia do rei dos vampiros.

Existem diversas de adaptações do livro de Bram Stoker, publicado pela primeira vez em 1897, mas nem mesmo o premiado Bram Stoker’s Dracula (Dracula de Bram Stoker, de 1992), dirigido pelo norte-americano Francis Ford Coppola (trilogia The Godfather), manteve-se fiel ao material de origem.

O húngaro Bela Lugosi como Drácula, no filme dirigido por Tod Browing

O livro

Contada a partir de cartas e diários dos personagens, a obra do autor irlandês não carrega traços românticos, mas bebe do medo humano diante do sobrenatural. Acompanhamos a viagem do advogado Jonathan Harker até as montanhas dos Cárpatos, onde um cliente de seu empregador aguarda para elucidar os detalhes da compra de uma propriedade na Inglaterra.

Ao longo do trajeto, passageiros que dividem a carruagem com Harker despejam baldes de misticismo, alertando-o sobre a noite de Walpurgis, em que, diz a lenda, o Diabo está a solta. Agarrado à fé e ao dever, Harker prossegue para encontrar o seu destino. Essa luta humana para manter sua crença em deus, mesmo em meio à desgraça e aos terrores inexplicáveis da noite, permeia todo o livro. Os elementos cristãos são postos à prova e se mostram como armas eficazes na luta contra o mal.

Logo, conhecemos o conde Drácula, um indivíduo de hábitos peculiares: some durante o dia, nunca é visto comendo e não projeta sombra ou reflexo em espelhos. A princípio, mostra-se como um anfitrião gentil e atencioso, mas não demora para percebermos os primeiros sinais de que existe fios invisíveis sendo puxadas nas trevas e que Jonathan é apenas mais um peão neste jogo que vem sendo planejado há séculos com o único objetivo de levar o morto-vivo à Londres.

Nesse ponto, temos um rompimento entre os filmes de 1992, 2014 e o livro. As obras cinematográficas humanizam o vilão, justificando sua natureza monstruosa como fruto da tragédia que sofrera enquanto Vlad III, o príncipe da Valáquia, conhecido por resistir ao avanço do Império Otomano. Ambos (pelo menos foi o que a cena pós créditos de Drácula deu a entender), pecam ao tornar Drácula um homem apaixonado tentando conquistar Mina Murray, esposa de Jonathan, que seria fisicamente idêntica a sua esposa falecida. A decisão acrescenta camadas ao personagem, mas se desvia da fonte. A sensualidade usada em doses cavalares em filmes de vampiro, surge aqui e ali, numa fórmula que nenhum diretor ou roteirista conseguiu reproduzir até agora.

A narrativa em cartas reveza entre os acontecimentos no castelo do conde e, aos poucos, os impactos de sua chegada à Londres. Vemos as demonstrações dos poderes do vampiro, como manipular o vento e neblina — além de transformar-se e comandar animais. Drácula passa a sugar sua vítima, levando-a à exaustão e, consequentemente, à morte. O sentimento de fadiga transmitido pelos espectadores do acontecimento se assemelha ao tormento empregado pelo demônio de Exorcismo, de Thomas B. Allen. O terror, então, se dá pela agonia de assistirmos — de mãos e bocas atadas — uma vida perecer sem que os demais saibam exatamente do que se trata. O vampiro demora a se mostrar completamente. Desta forma, o romance aborda as investidas como um jogo de inteligência contra o grupo forjado no luto de uma das vítimas.

Anthony Hopkins encarna Van Helsing, em Drácula de Bram Stoker (1992)

Van Helsing, que ganhou uma versão super-heróica interpretada por Hugh Jackman, em 2004, surge como a figura que desvenda o plano nefasto. Com astúcia, os personagens descobrem no passado de Drácula características do seu modus operandi que são indispensáveis para encurralar o conde. No fim, há o sentimento de redenção para o imortal, mas diferente do longa de Coppola, dá-se de maneira muito menos romântica e mais prática.

O Futuro

Este mês, estreia A Múmia, protagonizado por Tom Cruise e Sofia Boutella (Kingsman). Será a segunda tentativa do estúdio reiniciar o Universal Monster, famoso entre as décadas de 1920 e 1930 por unir os monstros clássicos da literatura e cinema de horror. Entre os títulos confirmados está Van Helsing. Caso o longametragem se foque no excêntrico professor e desbravador do oculto, podemos ter um Drácula cruel e, realmente, monstruoso. Quando a grande noite chegar, a esperança é de que o rei-vampiro se levante em toda sua glória!

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