Resenha: Sala dos Professores, da Cia Elevador de Teatro Panorâmico

Nos últimos dias, eu assisti ao espetáculo “Sala dos Professores”, peça da Cia Elevador de Teatro Panorâmico, escrita por Leonardo Cortez e dirigida por Marcelo Lazzaratto. Eu acompanho as peças do Leonardo Cortez desde 2009 e sempre gostei da construção de seus personagens, das surpresas ao longo da dramaturgia e, principalmente, do gênero comédia trágica que é um dos meus preferidos.

A peça se passa em um único cenário: a sala dos professores de um colégio particular onde seis professores frustrados e cansados da rotina escolar se reúnem durante o intervalo das aulas para desabafar sobre os problemas do dia a dia. O sétimo personagem é o diretor da instituição que propõe que os professores preparem um evento para comemorar o aniversário do colégio e recebam a visita ilustre da diretora da Sociedade Mantenedora que administra o colégio.

A partir daí, discussões sobre trabalhos em horário extra, baixos salários e falta de reconhecimento dão rumo ao espetáculo que nos leva um jogo de revelações sobre cada personagem, suas intrigas e os problemas com seus trabalhos que, muitas vezes, misturam-se com seus problemas pessoais. Esses elementos levam a situações cômicas e trágicas que se desenrolam ao decorrer da peça.

Segundo Leonardo Cortez, a construção de cada personalidade foi iniciada a partir do que sugere a matéria que cada professor leciona, enquanto outros elementos apresentam contradições que levam a algum tipo de neurose escancarada. Neste caso, temos personagens que contrastam entre a sensibilidade, a revolta, a confusão, a sensatez, a maldade e a ingenuidade, sempre mostrando uma dualidade entre o bom e o mau caráter. “No final das contas, o esforço é sempre criar condições para que um rico coquetel de personalidades conflitantes dê respaldo à situações supreendentes, num exercício de apontamentos do pior e do melhor no ser humano”, afirma Cortez.

Sala dos Professores Cia Elevador 1

Um dos temas centrais da dramaturgia é tratar a sociedade brasileira e a sua relação com os profissionais da educação, seja pelo fato de a educação ser vista como mercadoria ou pela imensa desvalorização dos professores ao longo das últimas décadas no Brasil. Cortez, que é professor de teatro desde 1995, usou seu próprio exercício profissional como inspiração para desenvolver a peça e promover tal debate.

“Sempre me pareceu urgente o debate acerca da educação como mercadoria. Até que ponto os professores que trabalham numa instituição particular podem ser massacrados diante de uma relação patrão/empregado com seus alunos? Qual a possibilidade de cobrança pedagógica diante da realidade cruel que o aluno paga o salário do professor com a mensalidade que é paga pelos pais? […] Tratam-se de questões apaixonantes que sinto que mobilizam e promovem a reflexão e o debate no espectador ao final de cada espetáculo e esse é o grande objetivo”, comenta.

A reflexão que fica é que os professores são seres humanos como todos nós: são motivados pelo seu trabalho, têm o desejo de ver seus alunos terem conquistas com esforço e paixão pelo o que fazem, mas, ao mesmo tempo, também são passíveis de falhas e influencias negativas externas – percepção que, infelizmente, muitas vezes não temos.

“O convívio diário e massacrante no dia a dia escolar e com os seus pares deixa os professores à mercê de picuinhas, fofocas, paixões, intrigas e disputas de poder comuns a qualquer aglomerado humano. A junção de todos esses elementos proporciona os aspectos trágicos e cômicos potencias da trama”, finaliza.

O elenco de Sala dos Professores é formado por Carolina Fabri, Pedro Haddad, Rodrigo Spina, Marina Vieira, Wallyson Motta, Laís Marques e o próprio Leonardo Cortez. A peça está em cartaz no Espaço Elevador (Rua Treze de Maio, 222) até 26 de junho. As sessões ocorrem aos sábados, às 21h, e aos domingos, às 19h. Ao final da apresentação sempre rola um bate-papo/debate sobre a peça com o Leonardo Cortez. Crédito das fotos: João Caldas.

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